A regra dos 4% não foi feita para o Brasil. Qual é o número aqui?

Gráfico do artigo do Acorda Investidor

Você já ouviu a regra: junte 25 vezes o seu custo anual, retire 4% no primeiro ano, corrija esse valor pela inflação todo ano, e o dinheiro dura pelo menos trinta anos.

É um bom atalho. O problema é que ele foi calibrado em um país específico, num período específico, e quase todo mundo que o repete no Brasil não sabe disso.

1. De onde veio o número

Em outubro de 1994, William Bengen publicou no Journal of Financial Planning o artigo Determining Withdrawal Rates Using Historical Data. A ideia central: assumindo um requisito mínimo de trinta anos de longevidade da carteira, uma retirada de 4% no primeiro ano deveria ser segura.

Repare em três detalhes que somem quando a regra vira meme.

A retirada é de 4% do valor inicial, corrigido pela inflação todo ano. Não é 4% do saldo corrente. Se a carteira cai pela metade, você continua sacando o mesmo valor real. É isso que torna a regra exigente.

A base de dados é o mercado americano entre 1926 e 1992. Ações large cap dos Estados Unidos e títulos do Tesouro americano de prazo intermediário, carteira meio a meio, horizonte de trinta anos.

O número sai do pior caso, não da média. O coorte que define os 4% é o de quem se aposentou em 1968 e 1969, pegando o pico da bolsa seguido da estagflação dos anos 1970. Bengen chamou isso de SAFEMAX, a máxima taxa histórica segura.

O Trinity Study, de 1998, confirmou a ordem de grandeza com metodologia parecida, dados de 1926 a 1995 e a criação da métrica de taxa de sucesso da carteira.

E o próprio Bengen revisou o número várias vezes. Em 1997 subiu para 4,3% ao incluir small caps. Em 2006 chegou a 4,5% em contas isentas de imposto e 4,1% em contas tributáveis. Mais recentemente, com dados de 1973 a 2022 e a inclusão de mid caps, chegou a 4,7%.

Guarde a diferença de 4,5% para 4,1% por causa de imposto. Ela vai importar daqui a pouco.

2. O teste que quase ninguém cita

Em dezembro de 2010, Wade Pfau publicou no mesmo Journal of Financial Planning um artigo cujo título já entrega o resultado: An International Perspective on Safe Withdrawal Rates from Retirement Savings: The Demise of the 4 Percent Rule?

Ele aplicou a metodologia de Bengen a 17 países desenvolvidos, com 109 anos de dados, de 1900 a 2008, horizonte de trinta anos. O resultado: a taxa segura supera 4% em apenas quatro dos dezessete.

Gráfico de barras da taxa máxima de retirada segura em 30 anos por país, com os Estados Unidos em 4,02% e Japão em 0,47%
Wade Pfau, Journal of Financial Planning, dezembro de 2010.

A conclusão de Pfau, na letra: sob o critério do SAFEMAX, e de uma perspectiva internacional, a regra dos 4% de retirada real simplesmente não foi segura.

Olhe a posição dos Estados Unidos no gráfico. A regra dos 4% é o resultado de um dos mercados mais bem-sucedidos da história, no século em que ele foi mais bem-sucedido. Não é uma constante da natureza financeira. É o número do vencedor.

O Brasil não está na amostra. E aqui é onde o assunto fica interessante.

3. O que a evidência brasileira diz

Existe, sim, trabalho acadêmico brasileiro sobre o tema, e ele merece ser muito mais conhecido.

Lucas Oliveira Pereira e Marcelo Perlin publicaram na Brazilian Review of Finance, em 2023, o artigo Qual é a taxa de retirada sustentável para o Brasil?. Usaram dados de abril de 2004 a agosto de 2022, com séries de Ibovespa, IMA-S, IMA-B, IPCA e S&P 500 em reais, modelos DCC-GARCH multivariados e 5.000 simulações de Monte Carlo, justamente porque a série histórica brasileira é curta demais para o método original.

Carteira10 anos15 anos20 anos25 anos30 anos
100% renda fixa5%5%5%5%5%
75% renda fixa e 25% ações8%4%3%3%2%
50% ações e 50% renda fixa5%1%1%
50% S&P 500 em reais e 50% renda fixa7%3%3%2%
Taxa de retirada sustentável por composição e horizonte. Pereira e Perlin, Brazilian Review of Finance, 2023.

A conclusão dos autores, na letra: os resultados no Brasil privilegiaram portfólios compostos majoritariamente por ativos de renda fixa, em detrimento de ativos de renda variável, resultados estes inversos aos propostos por grande parte da literatura.

Pare um segundo nisso. Bengen recomenda entre 50% e 75% em ações e diz que sair dessa faixa é contraproducente. No Brasil, segundo o único estudo revisado por pares que encontrei sobre o assunto, colocar 50% em ações derruba a taxa sustentável de 5% para 1% no horizonte de trinta anos.

Não é uma diferença de calibragem. É uma inversão da conclusão.

4. Por que a conclusão se inverte aqui

O juro real brasileiro é uma anomalia global

Com a Selic em 14,00% ao ano desde a reunião do Copom de agosto de 2026 e o IPCA acumulado em 4,44% em doze meses até julho, o juro real corrente está perto de 9% ao ano. Nos vencimentos longos, o Tesouro IPCA+ vinha pagando acima de 7% de juro real ao ano em agosto de 2026, taxa travada até o vencimento para quem compra e carrega.

Compare com o gráfico de Pfau. Um título soberano brasileiro indexado à inflação paga hoje mais juro real garantido do que a taxa de retirada segura de qualquer um dos dezessete países que ele testou.

Quando a renda fixa entrega isso, a ação precisa entregar muito mais para justificar o risco adicional. No Brasil ela historicamente não entregou.

A inflação brasileira é instável, e o imposto incide sobre ela

Nos últimos dez anos o IPCA foi de 2,95% em 2017 a 10,67% em 2015. Uma variação de mais de três vezes. E o Brasil tem apenas cerca de trinta anos de inflação civilizada, de 1995 para cá. Bengen tinha 66 anos de dados e Pfau tinha 109.

Agora a parte que quase ninguém faz. O imposto de renda brasileiro incide sobre o rendimento nominal, não sobre o real. Num Tesouro IPCA+, os 15% da tabela regressiva incidem sobre o juro real mais a correção monetária pelo IPCA.

Isso significa que um título de IPCA + 7% não entrega 7% líquidos reais. Entrega menos, e quanto menos depende da inflação que vier. Quanto maior a inflação, maior a mordida sobre a correção do principal, ou seja, sobre a parte que só serve para você não empobrecer.

Lembra da revisão de Bengen, de 4,5% para 4,1% por causa de imposto? Nos Estados Unidos o imposto custou 0,4 ponto percentual. No Brasil, com IR sobre inflação, o efeito é estruturalmente maior e cresce justamente quando a inflação sobe, que é quando você mais precisa da proteção.

A sequência de retornos, e a amostra curta

O 4% de Bengen não sai da média histórica, sai do pior coorte. Isso porque, na fase de retirada, perdas no início são irrecuperáveis: você vende na baixa para pagar as contas e nunca recupera aquelas cotas. É o oposto exato da fase de acumulação, onde queda é oportunidade.

Qualquer simulação que use retorno médio em vez de sequências históricas ou Monte Carlo vai superestimar a taxa segura. E como o Brasil só tem uma janela de trinta anos disponível desde o Real, toda taxa brasileira calculada sobre histórico é, na prática, uma única observação.

Um exemplo prático disso: um blog comunitário brasileiro calculou 8,48% de taxa de retirada para uma carteira meio a meio de Ibovespa e CDI usando dados de 1995 a 2024. O mesmo texto reconhece que, ao rodar Monte Carlo com 95% de confiança, o número cai para algo entre 3,69% e 4,5%. A diferença entre 8,48% e 3,69% na mesma fonte é a melhor ilustração possível do que amostra curta faz com esse tipo de conta.

5. Quanto tempo você precisa planejar

A expectativa de vida ao nascer no Brasil chegou a 76,6 anos em 2024, o maior nível da série: 73,3 para homens e 79,9 para mulheres.

Mas o número que importa para aposentadoria é outro. Aos 60 anos, a expectativa é de 22,6 anos adicionais na média: 20,8 para homens e 24,2 para mulheres.

Cuidado com a leitura fácil. Isso não significa que você pode planejar para 21 anos. Expectativa é média, e metade das pessoas vive além dela. Planejar pela expectativa média é aceitar aproximadamente 50% de chance de ficar sem dinheiro ainda vivo. Bengen usou trinta anos justamente como margem sobre a média americana.

6. Então qual é o número no Brasil

Não vou entregar um número redondo, porque quem entrega está inventando. Vou entregar o que a evidência sustenta.

Cinco por cento é a taxa que o estudo brasileiro encontra com 100% de sucesso, em todos os horizontes, para carteira majoritariamente de renda fixa. É maior que os 4% americanos, e o motivo é o juro real brasileiro.

Essa taxa é bruta de imposto. O estudo não indica ter modelado IR sobre as retiradas, e nenhum trabalho brasileiro que combine taxa segura, imposto e come-cotas foi localizado. Na prática, você precisa descontar a mordida, que na renda fixa longa é de 15% sobre o rendimento nominal.

Ela também é bruta de custo. Bengen assume explicitamente ausência de taxas de administração. Se a sua carteira custa 2,4% ao ano, esse custo sai direto da sua taxa de retirada. Não é detalhe: é a diferença entre 5% e 2,6%. Se você não sabe quanto a sua carteira custa, comece por aqui.

E ela depende de o Brasil continuar sendo uma anomalia. O juro real brasileiro já foi de negativo em 2020 a uma média de 11,3% ao ano entre 2000 e 2007. O Banco Central estima o juro real neutro em torno de 4,8%. A NTN-B trava a taxa do dinheiro que você aplica hoje, mas os aportes e cupons futuros serão reinvestidos a taxas que ninguém conhece.

E um lembrete desconfortável: juro real alto não é almoço grátis. É preço de risco. Um país paga 7% de juro real porque o mercado exige prêmio para financiá-lo, não porque ele é generoso.

7. O que fazer com isso

  1. Pare de copiar a regra dos 4% de conteúdo americano. Ela responde a um mercado que não é o seu, com imposto que não é o seu e inflação que não é a sua.
  2. Faça a conta em termos reais e líquidos. Comparar Selic de 14% com uma taxa de retirada de 4% é erro de categoria: a primeira é nominal e bruta, a segunda é real e líquida. O par comparável é juro real depois do imposto contra taxa de retirada real.
  3. Trate custo como o que ele é: uma redução direta na sua taxa de retirada. Cada 1% de custo anual é 1% a menos que você pode sacar pelo resto da vida. Nenhuma escolha de alocação compensa isso.

Quanto a sua carteira custa por ano, camada por camada?

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Perguntas frequentes

A regra dos 4% funciona no Brasil?

Não do jeito que é ensinada. Ela foi calibrada com dados do mercado americano entre 1926 e 1992. O único estudo brasileiro revisado por pares sobre o tema encontrou taxa sustentável de 5% para carteiras majoritariamente de renda fixa e de apenas 1% em trinta anos para carteira meio a meio com ações, invertendo a recomendação de alocação da versão americana.

Como funciona a regra dos 4% para viver de renda?

Você acumula 25 vezes o seu custo anual, retira 4% no primeiro ano e corrige esse valor pela inflação todos os anos seguintes, independentemente do que a carteira fizer. A retirada é sobre o valor inicial, não sobre o saldo do momento, e é isso que torna a regra exigente.

Qual é a taxa de retirada segura no Brasil?

O estudo brasileiro disponível aponta 5% ao ano com 100% de sucesso para carteira majoritariamente de renda fixa. Mas esse número é bruto de imposto e bruto de custo. Se a sua carteira custa 2,4% ao ano, esse custo sai direto da sua taxa de retirada.

Por quantos anos preciso planejar?

A expectativa de vida aos 60 anos no Brasil é de 22,6 anos adicionais na média, sendo 20,8 para homens e 24,2 para mulheres. Como expectativa é média, planejar por ela significa aceitar cerca de 50% de chance de ficar sem dinheiro ainda vivo. Trinta anos é a margem usual.

O custo da carteira afeta a taxa de retirada?

Diretamente e na proporção de um para um. Cada 1% de custo anual é 1% a menos que você pode sacar pelo resto da vida. Nenhuma escolha de alocação compensa isso.

Fontes

  • Bengen, William P. Determining Withdrawal Rates Using Historical Data, Journal of Financial Planning, outubro de 1994. PDF
  • Cooley, Hubbard e Walz, Retirement Savings: Choosing a Withdrawal Rate That Is Sustainable, AAII Journal, 1998. aaii.com
  • Revisões de Bengen, Journal of Financial Planning, novembro de 2023. financialplanningassociation.org
  • Pfau, Wade D. An International Perspective on Safe Withdrawal Rates from Retirement Savings, Journal of Financial Planning, dezembro de 2010. SSRN
  • Pereira, Lucas Oliveira e Perlin, Marcelo S. Qual é a taxa de retirada sustentável para o Brasil?, Brazilian Review of Finance, v. 21, n. 3, 2023. PDF
  • Banco Central, séries SGS de Selic e IPCA, e Relatório de Inflação de junho de 2023 para o juro real neutro. bcb.gov.br
  • Blog do IBRE, FGV, evolução histórica das taxas de juros reais. blogdoibre.fgv.br
  • IBGE, Tábuas Completas de Mortalidade 2024. ibge.gov.br
  • Lei 11.033/2004, tabela regressiva. planalto.gov.br

Conteúdo educacional, sem recomendação de investimento e sem promessa de rentabilidade. As taxas de retirada citadas são resultados de estudos acadêmicos, não projeções desta casa, e são brutas de imposto e de custo, o que está declarado no texto. Taxas de mercado variam diariamente e estão datadas.

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Comentários

2 respostas a “A regra dos 4% não foi feita para o Brasil. Qual é o número aqui?”

  1. […] A armadilha. O IR incide sobre o rendimento nominal, ou seja, também sobre a correção pelo IPCA. Um IPCA+7% não entrega 7% líquidos reais, e essa distorção é o centro de por que a regra dos 4% não funciona aqui. […]

  2. […] A regra dos 4% não foi feita para o Brasil, e por que o custo sai direto da sua taxa de retirada […]

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