COE vale a pena? O que a evidência mostra, e quanto ganham para te vender um

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O COE é o produto financeiro brasileiro que melhor resume a tese deste site: ele não tem taxa, tem preço. Você não recebe uma cobrança, você compra uma estrutura cujo valor já embute quanto cada elo da cadeia vai ganhar antes de você ganhar qualquer coisa.

Este texto responde três perguntas. Quanto se ganha vendendo COE. Onde você encontra esse número no seu caso. E o que a evidência acadêmica disponível diz sobre o produto.

1. O que é, em uma frase honesta

O Certificado de Operações Estruturadas é um título emitido por banco, registrado na B3, que combina renda fixa com derivativos para entregar um resultado condicionado ao comportamento de um ativo qualquer: um índice, uma ação, uma moeda, uma cesta.

A Resolução CMN 4.263, de 2013, define duas modalidades. No Valor Nominal Protegido, os pagamentos mínimos são iguais ou superiores ao investimento inicial. No Valor Nominal em Risco, os pagamentos mínimos são iguais ou superiores a uma parcela previamente definida do investimento. Traduzindo a segunda: você pode perder, e o quanto está escrito no contrato.

Três fatos que costumam surpreender quem já tem COE na carteira:

O COE não tem garantia do FGC. Está escrito, com essas palavras, nos documentos dos emissores. Se o banco emissor quebrar, você é credor dele.

O COE não é investimento no ativo subjacente. Se ele está atrelado ao S&P 500, você não tem S&P 500. Você tem uma promessa de pagamento do banco calculada a partir do S&P 500.

Em agosto de 2024, o CMN criou o COE de Crédito, referenciado em risco de crédito, algo que a norma anterior vedava. É o produto que, em 2026, virou o centro de uma crise de confiança no setor.

2. Quanto a cadeia de distribuição ganha

Vou ser direto sobre o que sei e o que não sei.

Não existe estatística pública oficial. Nem a CVM, nem a B3, nem a Anbima, nem o Banco Central publicam a faixa típica de remuneração do distribuidor de COE como percentual do valor investido. Procurei. Não existe.

O que existe são três coisas diferentes, e é importante não confundi-las.

Primeiro, casos individuais divulgados nos documentos. Um COE do Santander de fevereiro de 2025 informa taxa de distribuição de 0,12% ao ano. Um COE do BNP Paribas informa remuneração da instituição intermediária de até 2% ao ano. Um COE do Itaú de fevereiro de 2025 declara que não conta com intermediários e traz um spread de emissão de 0,55% ao ano. São três números reais, verificáveis, e muito diferentes entre si. É exatamente por isso que a média não serve: o que importa é o número do seu papel.

Segundo, estimativas de participantes do mercado reportadas pela imprensa. Um multi family office calculou, para as carteiras que analisou, custo de cerca de 6% do valor investido em COEs, sendo 3% de comissão e 3% para a corretora. Outra reportagem cita comissões de 5% a 10% para corretoras e 3% a 8% para assessores. São estimativas de quem olha carteiras, não estatística apurada. Cito porque a ordem de grandeza importa, e sinalizo o que são.

Terceiro, e este é o ponto prático: a lei obriga a te contar o seu número.

3. Os dois documentos que respondem a pergunta no seu caso

O DIE

O Documento de Informações Essenciais é obrigatório e precisa ser entregue antes da aquisição. A Resolução CVM 8, de 2020, lista 28 itens obrigatórios no Anexo A. O item XXV é o que interessa aqui: informação sobre a remuneração que os intermediários receberão pela distribuição dos títulos.

Está lá. Em cada COE. Desde 2021.

Outros itens do DIE que valem a leitura antes de assinar qualquer coisa: as condições de recompra ou resgate antes do vencimento, o aviso sobre liquidez e existência de mercado secundário, a descrição da tributação, e os cenários possíveis de desempenho.

A mesma norma proíbe destacar artificialmente o melhor cenário no material publicitário e exige a advertência para ler o documento de informações essenciais antes de aplicar. Se a apresentação que você recebeu enfatizava o cenário bom, isso não é entusiasmo comercial, é descumprimento de regra.

O extrato trimestral

A Resolução CVM 179, de fevereiro de 2023, criou uma obrigação mais ampla e mais incômoda para a indústria. Pelo artigo 26-F, o intermediário deve enviar extrato trimestral, em até 30 dias após o fim do trimestre, com o valor total da remuneração auferida, discriminando modalidade, natureza e a parcela destinada aos assessores de investimento.

Não é só sobre COE. O artigo 26-C manda divulgar taxas cobradas do investidor, taxa de administração, taxa de performance, spread, taxas de distribuição, taxas de câmbio e percentual de ordens direcionadas.

A entrada em vigor foi prorrogada pela Resolução CVM 196, de dezembro de 2023, para 1º de novembro de 2024. Os primeiros extratos chegaram aos investidores em janeiro de 2025.

Ou seja: desde o começo de 2025, existe um documento periódico que diz, em reais, quanto a sua instituição ganhou por causa da sua carteira, e quanto disso foi para o seu assessor. Se você nunca viu esse extrato, peça. É seu por direito, e ele é a peça central de todas as camadas de custo de uma carteira.

E a terceira fonte, que quase ninguém conhece

O artigo 14 da Resolução CVM 8 obriga a instituição emissora a manter no próprio site uma seção específica com os parâmetros finais de cada COE emitido, incluindo os custos de distribuição, em até sete dias após a emissão. Procure por essa seção no site do banco que emitiu o seu papel.

4. A evidência acadêmica

Aqui a conversa muda de tom, porque deixa de ser sobre transparência e passa a ser sobre resultado.

Um estudo da FGV EESP, assinado por Otávio Bitu, Fernando Chague, Bruno Giovannetti e Tomaz Hamdan, publicado em outubro de 2020, analisou 284 COEs. Achado principal: 252 deles, ou 90%, tinham retorno esperado abaixo da taxa livre de risco.

Alguns números do mesmo trabalho. O retorno esperado médio dos 50 maiores COEs, aqueles vendidos a mais de cem pessoas entre 2016 e 2019, foi de 5,98% ao ano. O de 234 COEs distribuídos por uma grande corretora entre 2019 e 2020 foi de 4,94% ao ano. Na mesma época, o Tesouro Direto 2031 pagava 7,70% ao ano. Os autores atribuem a diferença a mark-ups elevados para bancos e distribuidores.

Um segundo trabalho, de Alan de Genaro, da FGV EAESP, publicado em setembro de 2021, analisou todos os COEs liquidados entre 2016 e 2019. Conclusão: os investidores tiveram retornos inferiores ao CDB, sem considerar o risco incorrido. O autor aponta que os COEs não podem ser vistos como substitutos de Tesouro Direto ou CDB, por envolverem opções embutidas desconhecidas do varejo somadas a conflito de interesse na intermediação.

Dois estudos independentes, duas escolas da mesma instituição, mesma direção.

Gráfico comparando o retorno esperado médio de COEs com o Tesouro Direto 2031
Retorno esperado ao ano. Fonte: FGV EESP, 2020. O Tesouro Direto 2031 pagava 7,70% na mesma época.

5. A liquidez, que é onde a conta piora

Os trechos abaixo foram retirados de documentos reais de emissores.

Do Itaú: o COE possui pouca ou nenhuma liquidez, de forma que é improvável que o investidor possa encontrar compradores interessados em adquiri-lo. E ainda: no resgate antecipado, o risco de perda do capital aumenta conforme a distância entre as datas de resgate e de vencimento.

Do BNP Paribas: não há proteção para o capital nos casos de recompra, resgate antecipado e negociação no mercado secundário.

Do Santander: não há histórico de mercado secundário para o COE, e o emissor poderá prover liquidez a seu exclusivo critério.

Junte as três frases. O capital protegido é protegido no vencimento. Se você precisar do dinheiro antes, a proteção não vale, o preço é o que o emissor calcular, e não há garantia nenhuma de que exista comprador.

Um COE de cinco anos não é um investimento de cinco anos. É um compromisso de cinco anos.

6. Tributação

IR retido na fonte pela tabela regressiva: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360, 17,5% de 361 a 720, e 15% acima de 720 dias. Há IOF em resgate antes de 30 dias.

Vale o registro de contexto: a MP 1.303, que unificaria a tributação de aplicações financeiras e acabaria com isenções, perdeu a validade em 8 de outubro de 2025, retirada de pauta na Câmara por 251 votos a 193. As regras antigas seguem valendo.

7. O tamanho disso

O estoque de COE cresceu de R$ 16,3 bilhões em dezembro de 2019 para R$ 83,5 bilhões em dezembro de 2024, uma alta de quase 50% só no último ano da série. Em abril de 2026, eram R$ 100,2 bilhões distribuídos por cerca de 710 mil contas nos segmentos de varejo e alta renda.

A concentração diz muito. Em 2024, de R$ 83,6 bilhões em COEs, R$ 66,2 bilhões, ou 79%, estavam no varejo alta renda. Não é o investidor institucional que compra COE. É o cliente com patrimônio relevante e assessor dedicado.

Em 2026 o quadro mudou. As emissões de janeiro a maio caíram 21,4% em valor, para R$ 14,2 bilhões, enquanto o número de contratos subiu 8,2%. O ticket médio caiu de cerca de R$ 225 mil para cerca de R$ 164 mil. O pano de fundo é a crise de confiança em COEs de crédito, com investidores descobrindo que capital protegido não protegia contra o risco de crédito que eles haviam comprado sem saber.

8. O que fazer

Se você tem COE na carteira, três passos.

  1. Abra o DIE do seu papel e procure o item da remuneração dos intermediários. Se você não tem o DIE, peça. A entrega antes da compra era obrigatória.
  2. Peça o extrato trimestral de remuneração da Resolução 179. Ele diz quanto a instituição ganhou com você e quanto foi para o assessor, em reais.
  3. Não venda por impulso. Resgate antecipado é exatamente onde o produto é mais desfavorável. Na maioria dos casos a decisão certa é levar ao vencimento e não comprar o próximo.

E se alguém te oferecer um COE agora, uma pergunta resolve: quanto você e a sua instituição recebem por essa operação? Se a resposta não vier em número, você já tem a resposta.


Quer saber quanto a sua carteira custa, camada por camada?

Envie o extrato ou a planilha da sua carteira, em PDF, Excel ou foto, e devolvemos o custo total anual camada por camada, com a indicação de onde ele está concentrado. Sem venda de produto, porque não vendemos produto nenhum.



Perguntas frequentes

COE vale a pena?

A evidência acadêmica disponível é desfavorável. Um estudo da FGV EESP analisou 284 COEs e encontrou 252 deles, ou 90%, com retorno esperado abaixo da taxa livre de risco. Um segundo estudo, da FGV EAESP, analisou todos os COEs liquidados entre 2016 e 2019 e encontrou retorno inferior ao de um CDB. Isso não quer dizer que todo COE seja ruim, quer dizer que a média é ruim e que o ônus da prova é de quem está vendendo.

Qual é o risco do COE?

Três riscos que costumam passar despercebidos. Risco de crédito do banco emissor, porque o COE não tem garantia do FGC. Risco de liquidez, porque não existe mercado secundário relevante e o resgate antecipado sai ao preço que o emissor definir. E risco de estrutura, porque o resultado depende de condições que você não controla e que já foram precificadas contra você na emissão.

O COE tem garantia do FGC?

Não. Está escrito com essas palavras nos documentos dos próprios emissores. Se o banco emissor quebrar, você é credor dele, sem a rede dos R$ 250 mil do Fundo Garantidor de Créditos.

O que significa capital protegido no COE?

Significa protegido no vencimento, e só. Se você precisar do dinheiro antes, a proteção não vale: o valor é o preço de mercado do momento, calculado pelo emissor, e pode ser bem menor que o investido.

Como saber quanto pagaram de comissão pelo meu COE?

Abra o Documento de Informações Essenciais do papel e procure o item sobre a remuneração dos intermediários, obrigatório pela Resolução CVM 8. Depois peça o extrato trimestral de remuneração previsto na Resolução CVM 179, que informa em reais quanto a instituição ganhou e quanto foi para o assessor.

Fontes

Conteúdo educacional. Nada aqui é recomendação de compra, venda ou manutenção de qualquer ativo. As estimativas de comissão citadas são de terceiros e estão identificadas como tal.

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Comentários

2 respostas a “COE vale a pena? O que a evidência mostra, e quanto ganham para te vender um”

  1. […] Quanto o seu assessor ganha quando te vende um COE, a camada 6 em detalhe […]

  2. […] COE vale a pena? O que a evidência mostra, o caso extremo de remuneração embutida no preço […]

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